• Lígia Verner

26 DE JULHO É O DIA DE NANÃ BURUQUÊ.

No mês das mulheres negras, conheça as Orixás Africanas mais amadas do Brasil


Neste mês de julho, temos importantes motivações para impulsionarmos o incremento dos nossos movimentos em busca de nos apropriarmos cada vez mais das nossas raízes.


Conhecer é quebrar preconceitos e poder ter opiniões, não a partir do que se quer incutir em nós, mas sim da percepção real do que temos a partir do que conhecemos e, portanto, a partir de uma crítica baseada em uma real habilidade, pois para criticar é preciso não conhecer apenas superficialmente o que se critica.


25 de julho é, no Brasil, o dia nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra e, no mundo, o dia Internacional a Mulher Negra Latina-americana e Caribenha. 26 de julho é o dia de Nanã Buruquê!


Pensando em trazer informações sobre as divindades africanas, que são deusas que regem o universo, divido alguns conhecimentos, propondo reflexões, a partir da demonstração da essencialidade das forças que regem, e, portanto, que reinam no mundo através das Orixás.

Orixás são as forças da natureza.


Também convido à observação de como alguns povos são induzidos estrategicamente a desprezar suas origens, neste contexto, espirituais, para que possa prevalecer o que os que tentam apagar, invisibilizando essas raízes, desejam impor como a religiosidade e os dogmas “corretos” indiscutíveis e, portanto, dominantes, a sua religiosidade, ignorando e muitas vezes ofendendo a religiosidade e os dogmas, inclusive preexistentes, ainda, se apropriando de alguns dos rituais corrompendo toda a sua essência e deturpando seus fundamentos.


Minha preocupação é saber que um incalculável número de pessoas e, portanto, talvez você, tenha se impregnado desses preconceitos e, sem ter habilidade crítica, por causa do desconhecimento, tipo, se quem detém o poder (econômico, religioso, etc.), diz ser essa a única verdade, se segue, sem nem tentar se movimentar pra conhecer e ter a própria opinião. Trazendo como inequívoco exemplo, de que o preconceito pode e vem realmente sendo incutido na nossa sociedade com todo o aparato providenciado pelos poderes dominadores e opressores, vejamos o que determinava o Código Criminal do Império do Brazil, Lei de 16 de Dezembro de 1830:


Crimes policiais
Capítulo 1 – Ofensas da religião, da moral e dos bons costumes
Art. 276. Celebrar em casa ou edifício que tenha alguma forma exterior de templo, ou publicamente em qualquer lugar, o culto de qualquer religião que não seja a do Estado sob pena de serem dispersos pelo Juiz de Paz os que estiverem reunidos para o culto, da demolição da forma exterior, e de multa de dois a doze mil réis que pagará cada um.

No período colonial, as leis puniam com penas corporais as pessoas que discordassem da religião imposta pelos escravizadores. Decreto de 1832 obrigava os escravos a se converterem à religião oficial. Um indivíduo acusado de feitiçaria era castigado com pena de morte. Com a proclamação da República, foi abolida a regra da religião oficial, mas o primeiro Código Penal republicano tratava como crimes o espiritismo e o curandeirismo. (Fonte: Agência Senado)


Sintonizando o que este artigo pretende abarcar, passarei a listar as Orixás, não de forma esgotada, com suas essencialidades e regências bases, para despertar, ao menos, uma autocrítica em quem venha a ler este trabalho, sobre se a sua percepção e posicionamento considerava a existência destes preceitos e características existentes a partir do dogma que justifica e ratifica o poder espiritual universal dos/das Orixás.


Antes, porém, importante situar, também não esgotando o tema, que há culto de Orixás no Candomblé (advindo de nações africanas que distinguem seus cultos, efã, ijexá, nagô e mina-nagô, queto, angola e jeje, entre outras menos conhecidas, aqui no Brasil o Candomblé poder ser conhecido como Xangô - em Pernambuco e Tambor de Mina - no Maranhão, por exemplo); na Umbanda (nesta religião Orixás possuem a identificação de Nkissi – A Umbanda é a união do Candomblé - trazido pelo povo bantu: pessoas escravizadas oriundas de Angola e Congo, inclusive sendo o primeiro povo de África trazido à força para Brasil no século XVI, somando 75% do total de pessoas escravizadas no país - e as crenças dos povos nativos do Brasil, o povo indígena, embora já bastante catequizados quando deste encontro e justamente por isso a Umbanda sincretiza seus cultos também com o cristianismo); e na Jurema (também conhecida como Catimbó, principalmente em Natal e Recife, frequentemente presenciado na região Nordeste do Brasil desde o período colonial, tem origem indígena, e que, em relação a Orixás, cultua, por exemplo, Exu (Nkisi Mavile): o mensageiro da espiritualidade e Oxóssi (Nkisi Tauamin): conhecedor das florestas, responsável pela fartura, alimentos e sustento).


Ainda precedendo a volta ao tema, qual seja, sobre as divindades femininas da religiosidade africana, gostaria de desmistificar quem é Exu.


Exu, que eu identifico e denomino como o encaminhador das intenções, é uma divindade da África que representa a comunicação entre o que há de mais sagrado dentre os poderes espirituais do universo e cada pessoa. É intermediário das nossas mensagens com a regência maior, na qual muitas pessoas reconhecem com a nomenclatura de “Deus”, mas, ao que dizem, sendo essencialmente comunicador e mensageiro, também é Exu aquele que pode levar, quando provocado, ao conhecimento da forças espirituais que dominam a negatividade, nossos desejos destruidores. Por isso o entendo como o que encaminha, quando solicitado, as intenções das pessoas ao mundo espiritual e, como é guardião ponderado e justo, nestes contextos, trabalha para que as intenções não atinjam outra pessoa senão aquela que as emana, inclusive demonstrando para a pessoa que não vale a pena vibrar na negatividade. Seja uma pessoa boa com você e com as outras. Exu vê as armadilhas sutis e te livra delas, fazendo com que se revelem pra você poder se proteger. Ele conhece tuas intenções e necessidades e te ajuda a conseguir alcançar teus objetivos te dando sinais. Exu Saudação: Laróyè Exu! Exu ê, mo júbà! Vós sois grande, Exu! Eu me curvo a ti, vós sois poderoso Exu!


Voltando às Orixás, que estarão abaixo apresentadas com seus nomes no Candomblé e na Umbanda, respectivamente, ei-las:


Nanã Buruquê (Nkisi Nzumbarandá): A mais idosa das Orixás. Cuida de nós através dos princípios e poderes naturais dos fundos das águas dos mares e dos rios, dos pântanos, do barro. É a memória da criação. Representa a mais pura ancestralidade feminina e a sua imensurável importância para nos conhecermos em profundidade. Carrega consigo o Ibiri (confeccionado com nervura da folha do pé de dendê e vara, ornado com búzios, palha da costa, cabaça e contas), que simboliza a longevidade através do respeito a quem já se foi. Gosta das cores anil, branca e roxa no Candomblé e roxa, lilás e branca na Umbanda. É a sabedoria. Sua saudação é: Sálù ba Nàná Bùrukú! Sálù ba Nàná! Tradução: Refugiaremos-nos com Nanã da morte ruim! Salve a mãe das águas pantaneiras!



Iemanjá (Nkisi Mikaiá): Mãe de quase todas(os) as(os) Orixás é a rainha do mar e dos ciclos da lua, o que reforça a sua influência na terra, sobretudo na existência humana, pois os ciclos lunares estão ligados à fecundação e à mulher nas nossas transformações cíclicas mais íntimas. Representa a própria força e os poderes do mar, tem domínio sobre conflitos, socorre com muito amor todas as pessoas que a procuram, mas pode ser bem severa quando há descuido da pessoa consigo mesma, principalmente após todos os avisos dados por ela sobre os perigos existentes ao redor de suas crias. Sua insígnia real é o abebé (tipo de leque) prateado que lhe dá poder sobre todas as águas por causa do domínio da imensidão do mar sobre a terra. Gosta das cores azul, branca, prata e também rosa. É a mãe das águas do mundo. Sua saudação é: Mo túnba Axé Yemojá! Odò Ìyá! Tradução: Sua bênção, Iemanjá! Salve a mãe das águas!



Oxum (Nkisi Kisimbi): Rainha das águas doces, da fertilidade - pra quem cuida dela, e dos reflexos em todos os sentidos. Em relação às águas doces embora possa ser calma, também pode ser muito profunda ao tempo em que essas águas podem iniciar altas reações através das cachoeiras ou resultar destas, ora mais suaves, ora altíssimas e densas, ou seja, a calmaria pode advir de passagens após encontros (com as águas das chuvas, com os ventos ou com o mar, ou ainda com a poluição, por exemplo) que refletem essas reações. Contudo, uma coisa é certa, por mais que possa em algum momento, sofrer, Oxum sempre encontra um jeito de vencer pelo seu poder, sedução e ginga. Gosta de estar enfeitada, como os fundos e os arredores das águas doces envoltos de riquezas, por isso usa colares, braceletes, brincos. Seu símbolo é um abebé (tipo de leque) dourado e com espelho. Gosta das cores amarela e dourada. É a Prosperidade. Sua saudação é: Óòre yèyé Oxum! Óòre yèyé o! Tradução: Salve Oxum, nossa mãezinha bondosa! Salve nossa mãezinha bondosa!



Iansã (Nkisi Matamba): Orixá dos raios e dos ventos, Iansã domina também os poderes do fogo e tudo o que advém destes elementos da natureza. Pode, portanto, parecer leve como uma brisa, simbolizada, por exemplo, por uma borboleta, ou indomável e temperamental feito uma búfala selvagem. Embora tenha a ver com água por ser rainha do Rio Niger da África, a força dessa Orixá se associa mesmo às tempestades, aos relâmpagos, aos movimentos para cortar negatividades, à luta pelo que entende justo para obter o que precisa e ajudar a quem protege (teve nove filhos), podendo para isso, tranquilamente, até abrir mão da vaidade atribuída às mulheres, o que não compromete em nada a sua sensualidade. Consegue dominar também outros elementos da natureza, inclusive representativos de Orixás masculinos, como o fogo junto com Xangô (Nkisi Nzazi) e o fogo (novamente), a terra e a morte, junto com Obaluayê (Nkisi Kaviungo). Seus símbolos sagrados são a ofange (espada) e o eruexin (confeccionado com chifre de búfalo e calda de búfalo, de boi ou de cavalo). Gosta das cores vermelha, marrom, rosa e coral no Candomblé e amarela-ouro na Umbanda. É a própria força do viver. Sua saudação é: Èpá heyi Ìyá Mesàn Orun! Èpá heyi Oya! Tradução: Viva à senhora dos raios, mãe dos nove céus! Viva à senhora dos raios, Oiá!



Obá (Nkisi Karamocê): Orixá respeitadíssima, apaixonada e guerreira. Há poucos estudos sobre ela, mas as representações desta destemida Orixá remetem a uma força líder e de sustento da humanidade através da habilidade da caça, da representação da força das águas e também do fogo e da justiça. Na África há um rio com seu nome, o Rio Obá. Ela detém os dons da cura, dos segredos e dos mistérios do mundo e zela pela proteção à ancestralidade como mantenedora do fio para o futuro. Obá é força que por amor mobiliza para luta, para a resistência, para o desvendamento e não aceitação do engodo. Quem trai Obá é mais fraca do que ela porque trai o amor, embora possa até parecer ser mais forte, mas quem trai o amor nunca chegará à altura da nobreza de Obá. Engana-se quem pensa que Obá se afoga com as águas turbulentas. Ela nos convida a exercermos a empatia e o cuidado umas com as outras e com o mundo. Suas insígnias são a ofange (espada), o escudo de cobre e o ofá (arco e flecha). Gosta das cores marrom, vermelha e amarela no Candomblé e vermelha e branca ou amarela e laranja na Umbanda. É o amor. Sua saudação é: Obá xirê! Akiro Obá Yê! Tradução: Obá brinca! Eu saúdo o seu conhecimento, senhora da terra!



Ewá: Na áfrica o Rio Yewá é sua morada. Ewá é uma Orixá misteriosa, tem o dom da vidência e é protetora do que precisa ser preservado, como as florestas, águas, estrelas, céus e astros. Nunca se deve a surpreender, pois ela tem uma força extraordinária, tal qual quando se tenta adentrar em uma floresta virgem e se encontra com uma resistência natural capaz de destruir quem a viola. Essa Deusa tem uma energia tão pura que contam que quando Ewá incorpora, ou seja, quando é invocada, incomodada, é preciso ser amarrada para conter sua reação. É guardiã das mulheres. Por ter o dom da vidência pode antevir como uma serpente contra quem insiste em ir onde não deveria ir, em fazer o mal ou se beneficiar ardilosamente de algo ou alguém, lançando uma névoa contra essa energia maléfica e a colocando tão perdida que temerá Ewá como à morte. É a Orixá do equilíbrio, portanto não de deve querer tirar sua paz. Ela está preocupada em proteger e para isso precisa estar como quer estar para poder agir, quando necessário. Ela vive no fim do arco-íris, um lugar de belezas, cores, alegria, abundância, tranquilidade e riquezas as quais todas as pessoas têm direito, e que ela preserva para ser fonte inesgotável, se dedicando a emanar tudo o que há lá para nós, por isso não se deve violar o que Ewá protege. Suas insígnias são a Ejô (cobra), a ofange (espada) e o ofá (lança ou arpão). Gosta das cores vermelha viva, coral e rosa. É a pureza consciente e capaz de reagir. Sua saudação é: Ri Rô, Ewá! Tradução: Doce, branda Ewá!


Axé pro mundo!


Lígia V. F. da Silva (Lígia Verner)

Advogada; Especialista em Direito Administrativo/UFPE; Professora; Pesquisadora e Produtora Cultural.

*Este artigo é produzido com o apoio do Fundo Baobá, por meio do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco.


Imagens: Iquilibrio.


Referências:

http://www.museuafrobrasil.org.br/pesquisa/indice-biografico/manifestacoes-culturais/candomble

https://www.girasdeumbanda.com.br/orixas/

https://www.girasdeumbanda.com.br/materia/241/a-origem-da-umbanda-bantu-amerindia.html

https://exporvisoes.com/2019/06/15/abebe-de-oxum/

http://cultura-afro-artesvisuais.blogspot.com/

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