• Juliana Lima

Eles combinaram de nos matar, a gente combinou de não morrer


“Por mais que você corra irmão

Pra sua guerra vão nem se lixar

Esse é o xis da questão

Já viu eles chorar pela cor do orixá?

(...) Nessa equação, chata, polícia mata? Plow!

Médico salva? Não!

Por quê? Cor de ladrão”

(Boa Esperança – Emicida)



O genocídio do povo negro no Brasil foi exposto e denunciado por Abdias Nascimento, em sua obra escrita no ano de 1978, quando africanos escravizados foram açoitados durante todo o período colonial, quando impuseram a ardilosa estratégia de embranquecer a sociedade por meio da miscigenação, iniciado com o estupro das escravizadas, quando legitimaram a falácia da democracia racial e, por fim, quando marginalizaram os corpos negros em todos os espaços. Até os dias atuais, os corpos negros são dizimados, inclusive com a institucionalização do estado.

Conforme dados estatísticos publicados pelo site da UOL, durante o período de 2011 a 2018, foi registrado o aumento de 1,3% em mortes causadas por violência física, entre os brancos. No caso dos negros, o aumento foi de 58,9%. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os negros representam a soma de pretos e pardos, que hoje são 56,7% da população.


O recorde de mortes de negros ocorreu em 2016, quando foram 1.162 assassinatos por violência física. Entre brancos, o recorde da década ocorreu em 2017, com 571 crimes dessa natureza.

Aos 21 anos de idade, quando há o pico de chances de uma pessoa ser vítima de homicídio no Brasil, pretos e pardos têm 147% mais chances de serem vítimas do que brancos, amarelos e indígenas. No Brasil, considerando proporcionalmente as subpopulações por raça/cor, de cada 7 indivíduos assassinados, 5 são afrodescendentes (Dados do IPEA).


O Estado, além de se omitir com a ausência de políticas públicas efetivas, ainda mata o povo preto. Segundo pesquisa realizada pela Rede de Observatórios da Segurança, pretos e pardos representam 75% dos mortos por intervenção policial no Brasil, em 2019. A bala perdida da PM sempre encontra um corpo negro.


Um dos reflexos do racismo na estrutura da sociedade brasileira é a imposição da inferioridade socioeconômica. Carolina de Jesus, em seu livro Quarto do despejo, narrou:


“Em 1948, quando começaram a demolir as casas térreas para construir os edifícios, nós, os pobres que residíamos nas habitações coletivas, fomos despejados e ficamos residindo debaixo das pontes. É por isso que eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos.

Rogério Ferreira da Silva Júnior foi a última vítima registrada do racismo institucional, sendo alvejado pela PM de São Paulo quando saía para passear de moto em seu bairro, em uma abordagem que, pelas imagens, não ofertou nenhuma ameaça. Bem como as primas Emilly e Rebeca, de 4 e 7 anos, assassinadas na porta de suas casas em Duque de Caxias/RJ, enquanto brincavam. Sim, o racismo é tão perverso que as crianças são arrebatadas, friso: não nos permitem sequer ter infância.


Não podemos deixar de mencionar as instituições privadas que, constantemente, associam a pele negra à bandidos, ainda perpetuando a infame mentalidade de que negro parado é suspeito e negro correndo é ladrão. Além da prática de tortura que é feito dentro dos estabelecimentos, muitas vezes ceifam as vidas pretas, como foi o caso de João Alberto, barbaramente ASSASSINADO pelos seguranças do supermercado Carrefour, no próprio local, e o caso de Pedro Henrique, assassinado há mais de 2 anos pelos seguranças no Extra que, até o momento, aguardam em liberdade.


Por diversas vezes, neste ano, nos roubaram o ar a cada tentativa de nos dizimar. Mas, somos feitos de luta e, após a incansável batalha dos Movimentos Sociais, rompemos o silenciamento racial. E assim, grandes temas da negritude têm ganhado espaço nos debates, como racismo recreativo, racismo estrutural, solidão da mulher negra e genocídio do povo preto.


Nãovamos recuar pois, o que a branquitude não entende é o poder de nossa ancestralidade e de toda a resistência que carregamos.


Este texto é em memória à Agatha, ao João Pedro, ao Miguel, à Marielle e a tantos outros nomes que tiveram suas vidas ceifadas pelo racismo no Brasil. Vocês jamais serão esquecidos e, enquanto vida tivermos, seremos luta. Como bem pontuou Emicida:

“A gente precisa lutar, porque a única coisa que a gente tem é uns aos outros. Tudo, tudo, tudo que nós temos é nós”.


Juliana Lima

Advogada

*Este artigo é produzido com o apoio do Fundo Baobá, por meio do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Ele reflete a opinião da Abayomi Juristas Negras e não dos apoiadores que contribuíram com sua produção.




Referência: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/11/21/morte-de-pessoas-negras-por-violencia-fisica-cresce-59-em-8-anos-no-brasil.htm?cmpid=


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