Escritora Carolina Maria de Jesus é honrada com título de Doutora Honoris Causa pela UFRJ


A escritora mineira Carolina Maria de Jesus (1914-1977) foi reconhecida com uma importante honraria: o título de Doutora Honoris Causa concedido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na última quinta-feira (25). Tendo sido uma mulher negra, repleta de lutas em tempos difíceis no Brasil, a autora relatou a dura realidade das favelas em suas obras.

O título à Carolina foi aprovado em unanimidade durante uma reunião realizada pelo Conselho Universitário (Consuni). Segundo a instituição, a honraria Honoris Causa significa "por causa da honra", e sua outorga não depende de títulos acadêmicos, mas a quem se destacou por virtudes, méritos e atitudes. Sendo assim, o homenageado tem os mesmos privilégios de quem possui um doutorado.

A obra mais conhecida de Carolina de Jesus certamente é o "Quarto de Despejo: Diário de uma Favela", publicado em 1960. Como o título sugere, trata-se de um livro-diário no qual a autora expõe, de maneira poética, sua vivência com a família em uma favela de São Paulo. Foi o primeiro livro de Carolina, e que foi traduzido para 14 línguas. Até hoje o exemplar é objeto de estudos, pois continua atemporal. A realidade nas favelas do Brasil pouco mudou, principalmente para as mulheres negras.

Carolina teve uma infância praticamente igual a de qualquer outra criança negra nascida em meados de 1914. Ela morava com a família na favela do Sacramento, em Minas Gerais. As desigualdades racial e social eram muito mais gritantes, e a educação naquela época era privilégio para poucos.

Carolina chegou a frequentar a escola durante o ensino fundamental, mas só por dois anos. Ela Aprendeu a ler e a escrever o suficiente para desenvolver o gosto pelos livros.

Tempos depois mudou-se para São Paulo, onde trabalhou como empregada doméstica e até como catadora de papel. Ela se instalou por um bom tempo na comunidade do Canindé, na Zona Norte da cidade, e foi lá que ela teve seus três filhos e os criou sozinha.

Mesmo diante das muitas dificuldades, Carolina não deixou de ler e ao mesmo tempo escrevia o seu diário, relatando aquela realidade a qual estava inserida naquele período.

No final da década de 1950, Carolina foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, que foi quem orientou e auxiliou-a na publicação de suas anotações. Um dos trechos do livro escancara não só a dura vivência, mas a fortaleza de Carolina enquanto mulher negra, mãe solteira e catadora de papel que lutava para sobreviver.

“De manhã eu estou sempre nervosa. Com medo de não arranjar dinheiro para comprar o que comer. Mas hoje é segunda-feira e tem muito papel na rua. () O senhor Manuel apareceu dizendo que quer casar-se comigo. Mas eu não quero porque já estou na maturidade. E depois, um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler. E que levanta para escrever. E que deita com lápis e papel debaixo do travesseiro. Por isso é que eu prefiro viver só para o meu ideal. Êle deu-me 50 cruzeiros e eu paguei a costureira. Um vestido que fez para a Vera. A Dona Alice veiu queixar-se que o senhor Alexandre estava lhe insultando por causa de 65 cruzeiros. Pensei: ah! O dinheiro! Que faz morte, que faz ódio criar raiz”.

“A favela é o quarto de despejo da cidade”, dizia Carolina, e as hist