João Candido, “o Almirante Negro” e a Revolta da chibata (1910)


Nascido em 24 de junho de 1880, em Encruzilhada do Sul – Rio Grande do Sul –, João Cândido Felisberto, o Almirante negro, foi um militar da marinha brasileira e o líder da Revolta da Chibata de 1910. Mesmo sendo filho de mãe escravizada,[1] João era livre, como o pai, pois nasceu nove anos após a Lei do Ventre Livre (1871), que dava liberdade a qualquer filho de escravizados que viesse a nascer após a promulgação da lei.


O século XIX marcou, de diversos modos, muitas mudanças na sociedade brasileira. Foi o momento em que o tráfico de escravizados foi mais intenso, tendo seu auge nas primeiras décadas desse século, mas também sendo extinto oficialmente em 1850. Após a extinção do tráfico, outras leis vieram para, pouco a pouco, acabar com a instituição da escravidão no Brasil, como foi o caso da Lei dos Sexagenários, do Ventre Livre e, por fim, da Lei Áurea, que decretou a Abolição.


Todavia, mesmo com essas leis que marcavam uma mudança na vida dos negros do país, a situação continuou extremamente delicada, como o é até hoje. Muitos abolicionistas lutaram desde o início do século XIX para que a Abolição viesse a ocorrer, como foi o caso do ilustre advogado e jornalista Luiz Gama, por exemplo. Porém as lutas continuaram no pós-abolição, sendo João Cândido uma figura singular nesse processo.


O ano é 1910, Cândido, então com 30 anos, era um militar da Marinha brasileira que já tinha participado de expedições importantes por vários continentes e era conhecido por ser extremamente inteligente, sabendo realizar praticamente todas as funções dentro de um navio. Num desses contatos, na Inglaterra, os marinheiros percebem a diferença de tratamentos dos marinheiros em outros países em relação ao Brasil. O tratamento que a Marinha Inglesa dava a seus marinheiros e a luta por reinvindicações deles contrastavam com a brasileira, marcada pela escassez de alimentos e pelo tratamento extremamente agressivo e repressivo.


Para João era inadmissível que, mesmo com a vinda da Abolição e com o fim do status de escravizados para muitas pessoas, a Marinha continuasse com atitudes de subordinação como, por exemplo, o uso de chibatadas como punição para delitos na instituição. Para os crimes de pequeno porte eram instauradas uma solitária e prisão por vários dias; os de maior porte, por sua vez, eram tratados com chibatas: os marinheiros tiravam as suas roupas e recebiam centenas de açoites com chicotes.


Revoltados com a situação, os marinheiros começam a conspirar um plano de revolta e fixam o dia 25 de novembro de 1910 como o dia do ocorrido.


O estopim para a revolta veio com a punição para um de seus companheiros e antecedeu em dias a data inicial. No dia 21 de novembro de 1910, o marinheiro Marcelino Rodrigues de Menezes foi punido com cerca de 250 chibatadas, que ocorreram em frente a todos os tripulantes do navio Minas Gerais e não pararam mesmo com o desmaio do marinheiro, que foi levado à prisão sem atendimento médico. Isso gerou ainda mais indignação nos tripulantes e acelerou, em dias, um processo de revolta que já vinha sendo conspirado semanas antes.


Fotografia de João Cândido no Jornal Gazeta de Notícias de 31 de dezembro de 1912, publicada, manchete, há mais de 100 anos. Domínio Público.