Julho: o mês de Tereza, o mês da mulher negra.


“Governava esse quilombo a modo de parlamento, tendo para o conselho uma casa destinada, para a qual, em dias assinalados de todas as semanas, entrava os deputados, sendo o de maior autoridade, tipo por conselheiro, José Piolho, escravo da herança do defunto Antônio Pacheco de Morais, Isso faziam, tanto que eram chamados pela rainha, que era a que presidia e que naquele negral Senado se assentava, e se executava à risca, sem apelação nem agravo. - Anal de Vila Bela do ano de 1770.

Século XIII. Brasil-Colônia. Quilombo Quariterê. Guaporé/Mato Grosso. Rei José Piolho. Rainha Tereza, nascida em Benguela. Tereza de Benguela. Após a viuvez, reinou em parlamento por mais de 20 anos. Resistência, luta e transformações sociais. Organizou estruturas políticas, econômicas e administrativas da sua comunidade. Insurgente. Batidas frequentes da Coroa Portuguesa sob as forças de Luiz Pinto de Souza Coutinho. 25 de julho de 1770. No Quilombo Quariterê, 79 pessoas negras e 30 índias foram mortas ou aprisionadas, entre as assassinadas (decaptada), Tereza Benguela. 250 anos depois, 2020. Tereza, PRESENTE!


Muitas histórias vividas pelo povo negro foram invisibilizadas e até mesmo apagadas, queimadas, como por ocasião da ordem da Circular do Ministério da Fazenda, nº 29, de 13 de maio de 1891, mandando queimar os arquivos da escravidão, o que de fato ocorreu.


A história de Tereza de Benguela demonstra a luta por liberdade e dignidade da população negra protagonizada por uma mulher, sobretudo na época em que o tráfico de pessoas escravizadas aumentava no Brasil, onde o apogeu pode ser situado entre 1701 e 1810 (tempos vividos por Tereza), quando destas, 1.891.400 foram desembarcadas nos portos coloniais.


Note-se que o sistema escravocrata se iniciou no Brasil em meados de 1530, entre Pernambuco e Bahia, quando era utilizada a escravização indígena na extração do pau-brasil (o povo nativo foi praticamente dizimado com varíola e gripe, a partir do contato com europeus e por guerrear contra quem os escravizava) e foi, a partir do cultivo da cana-de-açúcar, com a produção do açúcar, sendo este o principal produto econômico da colônia, que ocorreu a transição para a utilização da mão de obra africana, como manutenção do sistema implantado no Brasil. Tereza sabia, que, mesmo depois de mais de 200 anos de escravidão, nunca fora justo não ter direitos e que não era “normal” o que acontecia.


Obra: Na Lagoa. Artista: Carybé (Hector Julio Páride Bernabó)


O movimento negro feminista brasileiro resgatou a história de Tereza de Benguela, trouxe à tona sua luta por direitos humanos e sua insurgência contra a discriminação e opressão sobre pessoas negras, diante disto, foi exigido o reconhecimento do protagonismo das mulheres negras contra o racismo. Isto também foi feito em relação à Esperança Garcia, primeira Advogada negra do Brasil reconhecida oficialmente em 2017 pela OAB/PI, a pedido da Comissão da Verdade da Escravidão Negra daquela seccional, que aos 19 anos, em 06 de setembro de 1770, ano do assassinato de Tereza de Benguela, enviou uma petição ao então presidente da Província de São José do Piauí, governador da Capitania do Maranhão, Gonzalo Lourenço Botelho de Castro, denunciando os maus-tratos que sofria e demandava justiça. Senão vejamos a petição:


“Eu sou uma escrava de V.S.a administração de Capitão Antonio Vieira de Couto, casada. Desde que o Capitão lá foi administrar, que me tirou da Fazenda dos Algodões, aonde vivia com meu marido, para ser cozinheira de sua casa, onde nela passo tão mal. A primeira é que há grandes trovoadas de pancadas em um filho nem, sendo uma criança que lhe fez extrair sangue pela boca; em mim não poço explicar que sou um colchão de pancadas, tanto que caí uma vez do sobrado abaixo, peada, por misericórdia de Deus escapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confessar a três anos. E uma criança minha e duas mais por batizar. Pelo que peço a V.S. pelo amor de Deus e do seu valimento, ponha aos olhos em mim, ordenando ao Procurador que mande para a fazenda aonde ele me tirou para eu viver com meu marido e batizar minha filha. De V.Sa. sua escrava, Esperança Garcia”

Embora não se saiba o ano da ocorrência e nem as condições de sua morte, consideramos Esperança, PRESENTE!