Rainha negra da voz, mãe de todos nós: Clementina de Jesus


Se viva fosse, hoje seria um dia de muita festa, regada a samba e a ancestralidade. Dia 07 de fevereiro de 1901 nasceu na cidade de Valença, estado do Rio de Janeiro, a dona de uma das vozes negras mais marcantes do Brasil, a nossa rainha negra da voz: Clementina de Jesus da Silva.


Neta de escravizados, filha de Paulo Batista dos Santos, pedreiro, mestre de capoeira e violeiro, e de Amélia de Jesus dos Santos, parteira, sua vida foi dura, trabalhando como doméstica por mais de vinte anos para criar suas filhas. Clementina viveu por 86 anos, porém apenas aos 63 anos teve sua voz revelada, ganhando os palcos e revolucionando o samba.


Sua força, resistência e grandiosidade é tamanha que transformou o Quelé em um símbolo da negritude no Brasil. O país que pratica racismo religioso severo até os dias atuais, caiu no samba com músicas como: Ponto da macumba Xangô e Fui pedir as almas santas. Suas músicas resgataram os laços entre Brasil e a mãe África, por meio de seus cânticos religiosos em Iorubá e canções de romaria.


A voz de Clementina de Jesus ganhou o cenário mundial e representou o Brasil no Festival de Cannes, na França, e no Festival de Arte Negra, no Senegal, onde se apresentou ao lado de Paulinho da Viola e Elton Medeiros, em um estádio de futebol. “Quando a Clementina entrou e começou a cantar, ela foi ovacionada. Foi uma coisa, assim... de você se identificar imediatamente. As pessoas começaram a aplaudir, a gritar. Essa cena eu não esqueço mais”, relembra Paulinho da Viola, no documentário Clementina de Jesus – Rainha Quelé, de Werinton Kermes.


Hoje, além do samba, sua letra integra o cenário do rap na voz de Emicida: “Muriquinho piquinino, muriquinho piquinino, Parente de quiçamba na cacunda. Purugunta aonde vai, purugunta aonde vai’, trecho de sua música Canto II, hoje faz parte da música Eminência Parda do rapper.


Conhecida também como Rainha Ginga (Nzinga), por toda sua resistência e resgate ancestral, foi aclamada como rainha também do partido alto, porém, mesmo com tanta potência, não teve grande sucesso comercial, levando uma vida humilde, onde passou por problemas financeiros e chegou até a escrever uma carta ao ministro da Previdência da época, Jair Soares, pedindo aposentadoria como cantora.


A nêga Clementina de Jesus já passou por muita coisa na vida. E hoje, para viver, beirando os 80 anos, necessita ainda se locomover por esse Brasil inteiro fazendo a única coisa que ainda pode: cantar. Mas a nêga véia está cansando, seu Ministro [...]”. O texto foi reproduzido no livro Quelé, a voz da cor, de Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz.


Em sete de fevereiro deste ano, Clementina de Jesus completaria 120 anos. Mulher negra aguerrida, com muita bravura conseguiu unir o samba ao folclore dos terreiros de candomblé e a música contemporânea.


Salve Clementina de Jesus em toda a sua ancestralidade, enquanto houver uma roda de samba, a Rainha Negra será imortalizada.


Juliana Lima

Advogada

*Este artigo é produzido com o apoio do Fundo Baobá, por meio do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Ele reflete a opinião da Abayomi Juristas Negras e não dos apoiadores que contribuíram com sua produção.






Referência:http://multirio.rio.rj.gov.br/index.php/leia/reportagens-artigos/reportagens/15501-clementina-de-jesus,-samba-e-ancestralidade


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