O direito de sermos diferentes em tempos de Corona vírus

Atualizado: 9 de Out de 2020


O insigne jurista Boaventura de Souza Santos tem uma citação extraordinária que merece ser colocada como ponto de partida para a presente discussão: "Temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades."


O trecho deixa nítida a ideia de que o discurso de sermos iguais ou de sermos diferentes pode ser facilmente manipulável em benefício ou em prejuízo de populações vulneráveis. Em tempo de corona vírus, é preciso muito mais atenção para não cair nesta armadilha.


Nos meios de comunicação, recebemos a mensagem de que todas/os, sem exceção, devem ficar em casa. Nos dizem que as ações que estão sendo pensadas são para benefício coletivo. Afirmam que estamos todas/os no mesmo barco e pedem que sejamos pessoas solidárias. Mas, precisamos ter um olhar mais crítico para perceber que esta coletividade não inclui os grupos marginalizados, que tem suas demandas invisibilizadas em um Brasil que é o segundo país com pior distribuição de renda do mundo, de acordo com Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) da Organização das Nações Unidas (ONU), publicado em dezembro de 2019.


No Brasil, 1% da população concentra 28,3% da renda nacional, ficando atrás apenas do Catar, onde essa proporção chega a 29%. Em outras palavras, podemos perceber que tanto no Catar quanto no Brasil, 1% da população é dona de praticamente um terço de todo o dinheiro do país.



Nos pedem para ficar em isolamento em nossas casas, mas temos mais de 100 mil pessoas em situação de rua, segundo dados do IPEA que reconhece a subnotificação e são pessoas para as quais não há política pública específica divulgada.


No término de 2019, o Brasil contabilizou 38.363 milhões de trabalhadores informais: empregados do setor privado e domésticas sem carteira assinada, conta própria e empregadores sem CNPJ, trabalhadores auxiliares em negócios de família. Estes, não acessam benefícios da CLT e são, em sua maioria, pessoas negras que ocupam as posições menos privilegiadas nos meios de produção formal e informal no mercado de trabalho, resquícios de um período escravocrata que acabou sem a concessão de qualquer política de inclusão social para a população negra.


O drama vivido por empregadas domésticas e diaristas não é novidade. O setor, marginalizado desde o período da escravidão, emprega 7 milhões de pessoas – a maior do mundo. Deste total, diz um estudo de 2015 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que é ligado ao Ministério do Planejamento e também integra o escopo da ONU Mulheres, 3,7 milhões de empregadas domésticas são negras.


Vale lembrar que a primeira morte por corona vírus no Rio de Janeiro foi a de uma empregada doméstica contaminada por sua patro