• Gabriela Tanabe

A escravizada Anastácia: santa e heroína


Em nove de abril de 1740, no porto do Rio de Janeiro, atracou um navio negreiro com 112 negros Bantus, originários do Congo, para serem escravizados nas terras brasileiras. Entre eles, estava Delminda, arrematada no cais do porto por uns mil contos de réis. Delminda foi violentada e acabou engravidando de um homem branco.


Sua filha, Anastácia, nasceu em 12 de maio de 1740. Com olhos azuis e beleza invejável, Anastácia cultivava o desejo e despertava a ira dos senhores e de suas esposas. Resistindo fortemente aos assédios e violências sexuais, a negra escravizada foi sentenciada a utilizar a máscara de flandres pelo resto de sua vida, retirando-a apenas para se alimentar.


Anastácia reagiu e lutou contra o sistema escravagista, suportou a dor, os maus tratos e os estupros que fora submetida por anos, tornando-se um exemplo de resistência e de luta.


Também ficou conhecida pelos milagres que realizou. Anastácia, literalmente, tirava os males dos adoentados “com a mão”. Ironicamente, a negra também salvou a vida do filho do fazendeiro que a violentou. Anastácia tornou-se também um símbolo de fé e devoção.


Quando faleceu, seus restos mortais foram sepultados na Igreja do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, no Rio de Janeiro, mas sumiram após um incêndio.


A Igreja do Rosário, berço da construção de alianças entre as pessoas negras (escravizadas e livres), é o local considerado precursor da religiosidade anastaciana. O culto à Anastácia iniciou em 1968, quando, em uma exposição em homenagem aos 90 anos de Abolição, foi divulgada uma litografia de Etienne Arago. A imagem era de uma mulher escravizada usando máscara de ferro.



Esta litografia foi utilizada, no início da década de 70, por Yolando Guerra, para ilustrar Anastácia em suas palestras, onde contava a vida da escravizada e dos negros em tempos de escravidão.


Descrita como uma das mais importantes figuras femininas da história negra, Anastácia é vista como santa e heroína em várias regiões do Brasil. Seus milagres arrebanham milhares de seguidores de diversas religiões, que, desde a década de 70, enchem a sala do Museu do Negro, no Rio de Janeiro.


De acordo com a crença popular, Anastácia continua operando milagres assim, muitas entidades estão unidas no propósito de solicitar ao Papa, a beatificação da negra escravizada.


Anastácia é símbolo de resistência, luta e fé para o povo negro e, por isso, o “Consagrado à Escrava Anastácia”, celebrado no dia 12 de maio, dia de seu nascimento, é usado por milhares de devotos para celebrar e relembrar sua vida.


Gabriela Tanabe



*Este artigo é produzido com o apoio do Fundo Baobá, por meio do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco.

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© 2020 por ABAYOMI Juristas Negras. Fotos de Luana Cruz (@luanacruzfoto).
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