• Lígia Verner

KWANZAA - o final de ano afrodiaspórico panafricano.

ORIGEM

As celebrações dos primeiros frutos são registradas na História africana, que remonta ao antigo Egito e Núbia, e aparece nos tempos antigos e modernos em outras civilizações africanas clássicas, como Ashantiland (hoje Gana) e Yorubaland (compreende parte da Nigéria, de Togo e do Benim). Essas celebrações também são encontradas nos tempos antigos e modernos de sociedades tão grandes como impérios (Zulu), reinos (Suazilândia/ eSwatini), sociedades ou grupos menores como Matabele, Thonga e Lovedu, todos do sudeste da África.


De 26 de dezembro até 1 de janeiro de cada ano é celebrado o ritual de congraçamento negro Kwanzaa, uma cerimônia de 7 dias da tradição de final de ano de origem africana, “fundada” em 1966 e propagada por Ronald Karenga (Maulana Karenga Ndabezitha)[1], líder e fundador do grupo de luta pelos direitos dos negros “UsOrganization”[2], com o intuito de aproximar as pessoas negras das suas raízes africanas e de ser o primeiro feriado panafricano[3]. Desde então, a celebração Kwanzaa se espalhou pela diáspora negra das Américas e Europa, mas apenas recentemente chegou ao Brasil e por aqui poucas pessoas conhecem a tradição, sendo muito incipiente sua celebração.


Karenga, centro, com a esposa Tiamoyo à esquerda, celebrando Kwanzaa no Instituto de Tecnologia de Rochester em 12 de dezembro de 2003.


Kwanzaa pode ser comemorado concomitantemente com o Natal ou Hanukkah (“natal dos judeus”), pois possui uma natureza inter-religiosa que valoriza conceitos de união familiar e comunitária. A cerimônia, como visto, ocorre no período de 7 dias tendo a sua última atividade no dia 1 de janeiro do ano seguinte ao início do primeiro dia da celebração, que é o 26 de dezembro do ano anterior.


Kwanzaa pertence a tradições muito antigas das celebrações das colheitas na África praticada pelos povos de todo o sudoeste da África. A festa é baseada em tradições pré-coloniais de países como Egito e Etiópia, em especial associadas à colheita. Ela propõe uma recriação do vínculo entre as comunidades da diáspora africana e suas raízes.


A utilização da palavra Kwanzaa para denominar a celebração foi destacada da frase “Kwanza do ya matunda”, em swahili (a língua mais falada na África ao sul do Saara, considerada uma das línguas oficiais da União Africana), frase traduzida como “primeiros frutos da terra”, fazendo entender que Kwanzaa significa “primeiros frutos” e a sua ligação com as significâncias de colheita e sobre a sabedoria oriunda da ciência da agricultura, como uma cultura que sustenta todo o mundo, sendo então celebrado em agradecimento às colheitas.


Uma história interessante contada sobre a palavra Kwanzaa é a de que durante uma das primeiras celebrações do Kwanzaa, havia um cortejo de crianças. Cada uma das seis crianças segurava uma das letras da palavra "Kwanza", que é como se escrevia o nome do feriado. Mas uma sétima criança, sem letra para segurar, começou a chorar. Alguém do evento deu à criança uma letra "a" a mais, e o feriado então foi renomeado como "Kwanzaa".


PRINCÍPIOS

Kwanzaa, neste contexto é uma celebração cultural e inter religiosa que se baseia em valores africanos Nguzo Saba, compostos por 7 princípios denominados de umoja, kujichagulia, ujima, ujamaa, nia, kuumba e imani. Cada um destes princípios Kwanzaa, Nguzo Saba, orienta as reflexões propostas, quais sejam:


Umoja (oo-MOE-jah): União - Vela preta. Dia 26/12: Estar em união com a família, a comunidade e a raça. Esforçar-se por uma união de princípios e harmonia na comunidade familiar, nação e comunidade africana mundial;


Kujichagulia (koo-jee-cha-goo-LEE-ah): Autodeterminação - Vela vermelha. Dia 27/12: Responsabilidade em relação a seu próprio futuro. Posicionar-se, designar-se, criar e falar por si mesma (o) ao invés de outras pessoas posicionarem, designarem ou criarem por você;

Ujima (oo-JEE-mah): Trabalho coletivo e responsabilidade - Vela verde. Dia 28/12: Construir em conjunto com a comunidade e resolver quaisquer problemas como um grupo;


Ujamaa (oo-JAH-mah): Economia cooperativa - Vela vermelha. Dia 29/12: A construção e os ganhos da comunidade através de suas próprias atividades;


Nia (nee-AH): Propósito - Vela verde. Dia 30/12: Desígnio de fazer da nossa vocação coletiva a construção e o desenvolvimento da nossa comunidade, a fim de devolver ao nosso povo a sua grandeza tradicional e expandir a cultura africana;


Kuumba (koo-OOM-bah): Criatividade - Vela vermelha. Dia 31/12: Usar novas idéias para criar uma comunidade mais bonita e mais bem-sucedida;


Imani (ee-MAH-nee): Fé - Vela verde. Dia 01/01: Honrar os ancestrais, as tradições e as lideranças africanas e celebrar os triunfos do passado sobre as adversidades. Acreditar em novas conquistas e vitórias.


A cada dia uma das sete velas deve ser acesa, num lugar onde também estão colocados os vegetais, legumes, flores, frutas e uma espiga de milho por cada criança que houver na casa (em uma família sem crianças, uma espiga de milho é colocada simbolicamente para representar as crianças da comunidade).


A primeira vela a ser acesa é a preta (no dia 26/12), geralmente as velas são acesas pelas pessoas mais jovens da casa, crianças não muito pequenas e adolescentes.. Depois de acesa a vela, todas as pessoas bebem de uma taça comum em reverência a suas ancestralidades, e saúdam com a exclamação “Harambee”, que tanto significa “reúnam todas as coisas”, como “vamos fazer tudo em união”.


SÍMBOLOS / PREPARAÇÃO


Imagem da internet


Para organizar a celebração se prepara uma mesa como suporte para acomodar os símbolos que vão se compondo durante os 7 dias, e simbolizam o Nguzu Saba, princípios da cultura africana:


Mkeka (M-kay-cah): é a esteira (geralmente feita de palha, e que também pode ser feita de tecido ou papel) sobre a qual todos os outros símbolos do Kwanzaa são colocados. A esteira representa a base das tradições africanas e da história;


Mazao (Maah-zow): as safras, frutas, vegetais e plantas colocadas numa tigela, representam as celebrações da colheita africanas e mostram respeito pelas pessoas que trabalharam no cultivo;


Kinara (Kee-nah-rah): o candelabro de sete suportes onde serão colocadas sete velas. É colocado no centro da mesa e representa a base original da qual todas as pessoas ancestrais da áfrica vieram, significa a fundação histórica;


Mishumaa (Mee-shoo-maah): as sete velas, cada uma representa um dos sete princípios, sendo uma preta, acesa no primeiro dia e que simboliza o povo africano, três vermelhas, simbolizando a luta do povo africano e três verdes, símbolo da esperança;


Muhindi (Moo-heen-dee): o milho representa as crianças africanas e a promessa de futuro para elas. Uma espiga de milho é colocada para cada criança da família. Em uma família sem crianças, uma espiga é colocada simbolicamente para representar as crianças da comunidade;


Kikombe cha Umoja (Kee-com-bay chah-oo-moe-jah): a taça, o copo, a xícara ou outro recipiente, simbolizando o primeiro princípio do Kwanzaa, ou seja, a união da família e do povo africano. O recipiente é usado para derramar a libação (água, suco ou vinho) para a família e as (os) amigas (os);


Zawadi (Sah-wah-dee): os presentes representam o trabalho dos pai e das mães e a recompensa para seus filhos e suas filhas. Os presentes são dados para educar e enriquecer as crianças, e podem ser um livro, uma obra de arte ou um brinquedo educativo. Pelo menos um dos presentes é um símbolo da herança africana.

O QUE ESTÁ ACONTECENDO? QUAL É A NOVA?


"Habari gani?"

Esse é o cumprimento feito por quem organiza e convida as pessoas para participarem do Kwanzaa. O cumprimento é um convite a reflexões diárias durante os sete dias da celebração, através da pergunta "Habari gani?" (o que está acontecendo? Quais são as notícias? Qual é a nova?). Cada dia tem a sua reflexão especial e a resposta para a mesma pergunta feita a cada um dos sete dias é o nome do princípio relacionado a cada dia em que a pergunta é feita.


Dessa forma a resposta para a pergunta "Habari gani?" no dia 26/12 é Umoja. Para o segundo dia, 27/12, quando se pergunta "Habari gani?", a resposta deve ser Kujichagulia e assim por diante nos outros dias, até 01/01.


O grupo reflete e discute o significado do princípio do dia e quem está participando pode contar uma história ou cantar uma música relacionada a esse princípio, refletir e até relatar o que fez durante o seu passado acerca do princípio do dia e como pretende contribuir no futuro.


Os presentes são oferecidos um a cada dia ou podem ser todos trocados no último dia.

No dia 31/12 é servida a comida preparada especialmente para o Kwanzaa e é também um momento de cantar, fazer preces e celebrar a cultura e história da africana. É organizado um grande banquete, o Kwanzaa Karamu. O banquete é mais do que só comida, é também um fórum de expressão cultural que inclui música, dança e leitura.


Um programa típico de um Kwanzaa Karamu é mais ou menos assim: kukaribisha (saudações): apresentação e saudação seguida por música, dança, poesia e outras apresentações; kuumba (relembrar): reflexões culturais; kuchunguza tena na kutoa ahadi tena (reavaliação e reforço do compromisso): um discurso breve feito por uma das pessoas convidadas; kushangilla (exultação): leitura das afirmações da libação, seguida por uma bebida comunal servida na Taça da União, e leitura dos nomes de ancestrais, heroínas e heróis negras (os), seguida por um jantar; tamshi la tutaonan (manifesto de despedida): leitura de uma afirmação de despedida acompanhada por uma conclamação de uma maior união.


O dia 1º de janeiro, o último dia do Kwanzaa, é um momento de reflexão para cada pessoa e para todo o grupo. As pessoas se perguntam: "quem sou eu?" "sou realmente quem digo que sou?" e "sou tudo o que posso ser?".


A partir daí se inicia um novo ciclo de vida, que costumamos encontrar em 12 meses e é nesse momento que temos a oportunidade de tentar realizar tudo para que as respostas aos princípios Nguzu Saba do próximo Kawanzaa representem cada vez mais prosperidade, alegrias e bem-estar para cada um (a) de nós individualmente, para a nossa família, para nossa comunidade, e para o mundo, mais conscientes das nossas raízes e das fontes da nossa identidade.


Pratiquemos todos os princípios Kwanzaa, todos os dias!



Imagem da internet


DICA DE LEITURA


- Livro infanto-juvenil Os Sete Novelos – um conto de kwanzaa, de Angela Shelf Medearis, com ilustração de Daniel Minter e tradução de André Jenkino do Carmo. Publicado em 2005 pela editora Cosac Naify.

Recomendo o livro considerando que é importante preservar as memórias e fortalecer as narrativas ancestrais de formação das nossas origens desde sempre e, sobretudo, desde muito cedo, para que seja natural esse conhecimento e em tenra idade já se perceba a diversidade como componente das sociedades, especialmente de forma empoderada por nossas crianças e adolescentes sobre as suas origens naturais.


Quanto mais crianças e adolescentes tiverem conhecimentos sobre suas ancestralidades mais autoconhecimento haverá e também mais união para a busca coletiva por direitos, bem-estar e bem-viver, pois nada se compara à união e como diz um provérbio africano: “um feixe de galhos é inquebrável”.


Lígia V. F. da Silva (Lígia Verner). Advogada; Especialista em Direito Administrativo pela UFPE; Professora; Pesquisadora e Produtora Cultural.

*Este artigo é produzido com o apoio do Fundo Baobá, por meio do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Ele reflete a opinião da Abayomi Juristas Negras e não dos apoiadores que contribuíram com sua produção.

Fontes:

CAPELHUCHNIK, Laura. Kwanzaa: O que é e como é comemorada? Disponível em: https://ceert.org.br/noticias/datas-eventos/26213/kwanzaa-o-que-e-e-como-e-comemorada. Acesso em: 11 out. 2020.

Diversidade étnica na educação. O “natal” kwanzaa. Disponível em: http://diversidadeetnica.blogspot.com/2012/12/o-natal-kwanzaa.html. Acesso em: 11 out. 2020.

Official Kwanzaa Website. Kwanzaa - a celebration of family, community and culture. Disponível em: http://www.officialkwanzaawebsite.org/. Acesso em: 11 out. 2020.

Site Preta Jóia Cultural. Kwanzaa: a comemoração africana do natal. Disponível em: https://www.pretajoia.com/2012/12/kwanzaa-comemoracao-africana-do-natal.html . Acesso em: 11 out. 2020.

WATSON, Stephanie. O Natal Kwanzaa. Traduzido por HowStuffWorks Brasil. Disponível em: https://ceert.org.br/noticias/datas-eventos/9512/o-natal-kwanzaa. Acesso em: 11 out. 2020.

Wikihow. Como celebrar kwanzaa. Disponível em: https://pt.wikihow.com/Celebrar-o-Kwanzaa. Acesso em: 11 out. 2020.

Wikipedia. US Organization. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/US_Organization. Acesso em: 11 out. 2020.




[1] Dr. Maulana Karenga é professor e catedrático de Estudos Africanos na California State University, Long Beach. Ele possui dois Ph.D.; o primeiro em ciência política com foco na teoria e prática do nacionalismo (United States International University) e o segundo em ética social com foco na ética clássica africana do antigo Egito (University of Southern California).

[2] A Organização dos EUA, ou Organization Us, é um grupo nacionalista negro nos Estados Unidos fundado em 1965. Foi estabelecido como organização comunitária por Hakim Jamal junto com Maulana Karenga. Era um rival do Partido dos Panteras Negras na Califórnia.

[3] Movimento que defende a união de descendentes de países africanos, que possuem herança e interesses em comum na defesa dos direitos dos negros e valorização de sua coletividade étnico-racial. As primeiras ideias começaram a circular em meados do século 19, nos Estados Unidos. Na década de 1960, foram amplificadas por meio de estudiosos e ativistas norte-americanos, como Edward Burghardt Du Bois e Marcus Garvey.


176 visualizações0 comentário
contato
  • Facebook ícone social
  • Instagram ícone social
  • YouTube ícone social

© 2020 por ABAYOMI Juristas Negras. Fotos de Luana Cruz (@luanacruzfoto).
Criado orgulhosamente com Wix.com