• PATRICIA OLIVEIRA

ANGELA DAVIS E O FEMINISMO NEGRO


Angela Davis, filósofa e ativista pelos direitos negros nos Estados Unidos nasceu em 26 de janeiro de 1944, na cidade de Birmingham no Alabama Desde cedo Angela Davis vivenciou o racismo de perto, através das ações brutais de uma das organizações da época, a KU KLUX KLAN.

A KU KLUX KLAN era uma organização terrorista que surgiu nos Estados Unidos ainda no século XIX, logo depois da Guerra Civil Americana, e promovia o terror no sul dos Estados Unidos, perseguindo, espancando e assassinando negros libertos e pessoas que defendiam os direitos civis para os afro-americanos. A organização ficou conhecida por enforcar suas vítimas e promover incêndios criminosos em casas que eram habitadas por negros.

Inconformada com as ações negacionistas de direitos para população negra, Angela Davis criou um grupo de estudos com enfoque nas questões raciais, entretanto, quando descoberto, o grupo passou a ser perseguido e proibido de funcionar pela polícia.

Desse modo, Davis mudou-se para outro estado, Massachusetts, norte dos EUA, que, apesar do racismo ser algo muito presente em todo lugar, a região estava à frente sobre as questões raciais, não existindo, por exemplo, política de segregação racial.

No ano de 1963, Angela Davis presenciou um atentado com bomba a uma igreja frequentada por pessoas negras, o que ocasionou a morte de quatro jovens conhecidos, tal fato marcou para sempre sua trajetória de luta.

Após tal situação, a ativista adentrou-se na luta social, filiando-se ao SNCC, organização antirracista fundada no princípio da resistência pacifica. Ideal também defendido pelo ativista, filósofo, teólogo e pastor Martin Luther King.

Com a extinção do SNCC, Angela mudou o estilo de luta, passando a integrar o Partido dos Panteras Negras, que ficou conhecido posteriormente como Movimento Panteras Negras.

O movimento tinha um modo de luta mais incisivo e combativo contra o racismo, entretanto, Davis fazia parte de uma frente mais pacífica do movimento.


Em 1970, as perseguições contra a filósofa foram ainda mais intensificadas, já que lutava contra a prisão injusta de pessoas negras nos Estados Unidos. Angela, por um mal entendido, entrou para a lista dos dez criminosos mais procurados pelo FBI, sendo acusada de conspiração, sequestro e homicídio.

Angela Davis permaneceu foragida até outubro de 1970, quando foi presa em Nova Iorque, e o seu julgamento durou dezoito meses, quando a filósofa comprovou inocência e obteve sua libertação.

O que aconteceu com Angela Davis há décadas atrás nos EUA, até hoje se perpetua em todo o mundo, visto que a população negra é pré-julgada cotidianamente e impedida de exercer, de fato, o seu papel de cidadã e detentora de direitos.

Após o cárcere injusto, a filósofa teve grande destaque como professora de história e filosofia em várias universidades renomadas nos Estados Unidos, o que nos implica a asseverar que, após deveras injustiça cometida pelo estado, há um movimento de se redimir, realizando a inclusão de Davis, quando, na verdade, a mesma desde sempre possuiu qualificação para ocupar os espaços somente oportunizado após sua prisão.

Angela Davis, mesmo tendo vivenciado tantas situações, seguiu escrevendo diversos livros, militando em favor do término da Guerra do Vietnã, bem como, face ao racismo e à igualdade de gênero.

Angela é uma intelectual de destaque no cenário político e, como militante negra, convida a todos a exercer o seu papel de resistência na luta contra o racismo.

É válido salientar que faz necessária a intersecção classe, raça e gênero, não sendo possível separá-las, uma vez que, segundo a filósofa, o nosso olhar somente para o fator classe social faz com que muitos militantes fechem os olhos só para as questões raciais.

Ademais, como herança da escravidão, em que os senhores tinham a legitimidade legal sobre o corpo e a vida de seus escravos e escravas, vivemos na atualidade um movimento tendencioso, em que o homem branco tem poder sobre o corpo da mulher negra, bem como, uma maior sexualização da mulher negra pela mídia, e isso reforça o estereótipo de que a mulher negra é um objeto sexual.

Contudo, para Davis, é de suma importância reconhecer que a mulher branca também sofre com esse problema, causado pela dominação machista, e entender que as mulheres negras estão em maior desvantagem por questões étnicas.




O Feminismo Negro

Entre as vertentes do Movimento Feminista, existe aquele que tem como enfoque as especificidades próprias das mulheres negras, denominado de Feminismo Negro.

No Brasil, essa vertente teve início na década de 1970 com o Movimento de Mulheres Negras (MMN), a partir da percepção de que faltava uma abordagem conjunta das pautas de gênero e raça pelos movimentos sociais da época.

Angela Davis, em sua obra Mulheres, raça e classe, afirma que as organizações de mulheres que lideraram o movimento sufragista nada fazem pela pauta da população negra.

Na mídia atual, as mulheres negras vêm conquistando seu espaço, fato que pode ser observado nas telenovelas, comerciais e séries, nas quais negras e negros estão começando a assumir papéis de personagens diferentes aos de subordinados. Também se destaca que a cultura negra e a religião estão sendo focadas na mídia como forma de valorização da identidade do povo negro.

Entretanto, ainda há muito o que avançar junto a mídia, já que muitas atrizes e atores negras, não raramente, são ofendidas por suas características físicas ou por serem comparados com pessoas negras com comportamentos considerados “inadequados”, ou seja, o assaltante, o usuário de drogas, o bêbado, a mulata assanhada.

Para Djamila Ribeiro, filósofa, feminista negra, escritora e acadêmica brasileira, pesquisadora e mestra em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo, é importante ter um movimento que trate de forma específica dos preconceitos e discriminações que as mulheres negras passam, pois, existe uma sociedade na qual opera a supremacia branca e que o movimento feminista também acaba por fazer parte desse sistema.

A não compreensão das especificidades das mulheres negras pelas ativistas das demais vertentes do feminismo ocorre desde tempos mais remotos, como exemplo cito a atuação das sufragistas e a luta pela emancipação financeira feminina na primeira onda do movimento feminista.

Com raras exceções, essas manifestações eram lideradas por mulheres brancas da classe média alta, as quais não pautavam as especificidades das mulheres negras, como as lutas contra o racismo e por melhores condições de trabalho, tanto no Brasil como em outros países.

Conforme entendimento de Angela Davis, as feministas brancas de classe média não se importavam sequer com a classe trabalhadora branca. Dessa forma, com as manifestações das chamadas mulheres vetadas, ocorreram as divisões de grupos feministas.

No contexto atual, essa disparidade perpetua-se e as ativistas do feminismo brancocêntrico (centrado nas experiências e vidas das mulheres brancas) ainda politizam as desigualdades apenas pelas questões de gênero, sem um olhar para cada grupo de mulheres em particular.

E tal fato é perceptível em vários espaços, como por exemplo no âmbito jurídico, em 2020, o Congresso Nacional da Mulher Advogada contou com um pouco mais de 30 (trinta) juristas negras dentre as 3.600 (três mil e seiscentas inscritas) participantes. Então indagamos, não há advogadas negras? inúmeras é a resposta assertiva, contudo, diante da segregação de classe, muitas advogadas ante a ausência de representatividade não vêm participando de tal evento.

A antropóloga e professora Lélia Gonzalez, assim se posiciona de forma contundente: “a tomada de consciência da opressão ocorre, antes de tudo, pelo racial“.

Desse modo, concluímos que deve ser combatido prioritariamente o racismo na luta das mulheres negras, pelo fato de existe dentro do movimento feminista um grupo de mulheres predominantemente branco.

Em que pese tais obstáculos, nós mulheres negras nos destacamos nas lutas, visto que nossa militância atinge diretamente o próprio opressor nas diferentes formas de atuação, sejam elas em posses de terras (como no caso das comunidades quilombolas), na periferia, na área de educação e na área de saúde da população negra.

Ante a todo o exposto, faz necessária a representatividade da mulher negra dentro da sociedade, nos espaços de poder, onde deve ser pautado o recorte de gênero, com uma visão conscientizadora e trazendo a reflexão do que é ser racista, ou seja, de se colocar no lugar do outro e de não colonizar seu lugar de fala.


Patrícia Oliveira

Advogada

*Este artigo é produzido com o apoio do Fundo Baobá, por meio do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Ele reflete a opinião da Abayomi Juristas Negras e não dos apoiadores que contribuíram com sua produção.

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