O menino de Pacas cumpriu a profecia de se tornar doutor

Atualizado: 9 de Out de 2020


Há 36 anos, quando era recém-nascido, um tio, de uns 5 anos de idade, colocou uma "caneta na minha mão e eu segurei. Ele disse para minha mãe: - olha, Tininha, teu filho vai ser "doutor". Olha como ele segura a caneta. Tempos depois, veio a falecer repentina e misteriosamente, como muitas outras crianças de Pacas, que nunca tinham visto um doutor. Ainda criança, mamãe me contou e essas doces palavras sempre me acompanharam. Assim como meu tio criança, nem sabia o que era ser doutor, mas que, se fosse para ser, deveria ser algo bom, para segurar. Obrigado, Zaquinha, o mundo precisa de palavras infantis.” Paulo Fernando Soares Pereira, Procurador Federal, doutor em Direito, Estado e Constituição.



Foi lendo essas palavras que comecei o dia de hoje e o Novembro da Consciência Negra chegou com a intensidade que eu imaginava.


Confesso que ainda estou sob o efeito de ter presenciado o primeiro Procurador Federal black power dar um show de competência e se tornar doutor em direito pela universidade de Brasília, com todos os elogios ao seu trabalho e diante de um auditório repleto de intelectuais conscientes da sua negritude.


Mais que isso, estou em êxtase de felicidade por ter presenciado um irmão romper bloqueios estruturais e ocupar mais um espaço de saber que supostamente não lhe pertencia, concretizando a profecia do seu tio menino.


Dr. Paulo Fernando assinando o termo de aprovação no doutorado em Direito pela UNB


Meu irmão, eu tinha que estar presente. Eu precisava ver o menino de Pacas vencer mais uma. Eu tinha que participar dessa rebeldia contra-sistêmica para alimentar minh’alma de esperança e abraçar a luta que esse mês representa.


Sim, UM menino negro saído do Estado mais pobre do Brasil (Maranhão) conseguiu entrar no sistema. Ele e alguns(as) poucos(as), como eu, em um país com milhões de pessoas negras. E isso só evidencia que a democracia racial brasileira é um mito cruel, que responsabiliza e culpa as pessoas subalternizadas pela opressão que sofrem diariamente.


É, meu irmão, vão pegar as nossas histórias para exemplificarem suas teses. Continuaremos ouvindo: “estão vendo? Basta querer e se esforçar. Tudo é uma questão de mérito”. Ou: “Racismo é um problema individual, uma questão de educação”. “Deveria ser novembro da consciência humana”, "todos somos iguais", “não existe racismo no Brasil, tudo é uma questão de classe”, dentre tantas outras ignorâncias verbalizadas para nos silenciar.